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domingo, abril 30, 2006

Grandes Dramas Judiciários: URBINO DE FREITAS (4)

Não sei se sabem mas este célebre episódio já foi romanceado por António Navarro (Amêndoas, doces, venenos - Porto, Campo das Letras, 1998). Nas palavras de Ana Margarida Ramos, este romance: «...centra-se na reconstituição do caso do médico e professor portuense Dr. Urbino de Freitas, acusado e condenado pelo crime de infanticídio do sobrinho Mário Guilherme; dá conta dos vários antecedentes do assassinato, das ligações familiares e afins dos elementos directamente ligados ao crime, de todo o processo de investigação, do julgamento do caso e das suas consequências na família do condenado e nos advogados de defesa envolvidos no caso, até à morte do médico.» Eu ainda não o li, mas vou ver se arranjo tempo para tal. Entretanto, também recomendo para os menos familiarizados com o Porto - e não só - uma rápida consulta ao Google Maps para verem onde fica a Rua das Flores.
4. Morte de Mário, um dos netos de Sampaio. Ressurge o caso recente da morte de Sampaio Júnior, filho do mercador.

O dr. Urbino, sem que o chamem, aparece às sete horas.
- Tão cedo! – comenta a sogra, surpresa.
- Como a deixei ontem bastante combalida...
- O Mário está muito mal – informa a senhora, alarmada. – As meninas queixam-se de dores de cabeça...
Aplicam-se-lhes novos clisteres.durante a sua preparação, êle recomenda que não deixem ferver a água. Preparados, mais uma vez pretende aolicá-los aos três sobrinhos – as meninas, como na véspera, a repelirem «o ti-ti», a criada a substituí-lo no ministério.
- «Vê lá se sabes dar êsses clisteres» - admoesta, na fiscalização da Luísa e da seringa:
- «Introduz o cano e aperta bem. Olha não vá líquido para fora».
Aplicados os clisteres, o tio despede-se.
A Maria Augusta expele o dela dí a nada. A Berta Fernanda segue-lhe o exemplo. O Mário, como dia anterior, mantém o seu no intestino e adormece. Acordando, porém, solta um grito aflitivo:
- Mamã! Mamã! Eu morro! O clister do tio matou-me! Mamã! Eu não quero morrer! Anda a casa à roda! Não vejo nada! Abram as janelas! – clama, a hora em que as janelas estão abertas e o sol de Abril entra em casa.
Por sua vez, a Berta queixa-se de aflições semelhantes. A avó, consternada, toma os dois netos ao colo – um em cada braço. Pede socorro. Correm a chamar o genro. O genro ao chegar, ao observar os doentes, declara peremptório:
- «Estas crianças estão envenenadas!»
- «Por quem?»
- «Eu sei lá! Chamem médicos!»
Comparece ao chamado o Médico Adelino Leão da Costa. Urbino informa-o de que os sobrinhos foram envenenados «por uma ingestão de doces, vindos de Lisboa». Não alude aos clisteres. Depois aparece o Médico José Godinho de Faria. Presta-lhe iguaia esclarecimentos, igualmente omisso na aplicação dos clisteres. Godinho de Faria não sabe explicar o «quadro tóxico de hoje, 2 de Abril, pois não lhe encontra relação com o primeiro, de 31 de Março». Lembra a necessidade de conferência imediata com o Mestre de toxicologia, Doutor José carlos Lopes.
Urbino sai à procura do colega da Escola Médica. Regressa sem êle, declarando que não o encontrou.
- Mário! Mário! – rouqueia a avó, na alucinação da sua dor, o menino a estorcer-se nas convulsões de atroz agonia.
Pretendem fazer-lhe ingerir medicamentos – que não transpõem a barreira dos dentes cerrados. A avó enche a bôca e procura introduzi-los na bôca do menino – que ão os recebe, que os expele, que morre em aflitivas ânsias.
Quando entra no quarto o Médico Joaquim José Ferreira, - «o janota», o psiquiatra que tão alto papel desempenhou no julgamento de Camilo – o pequeno está morto. Observa os doentes. Afirma que «nesta casa se deu um crime de envenenamento». Escreve um bilhete pedindo a comparência urgente do Comissário Geral da Polícia, dr. Adriano Acácio de Morais Carvalho, na casa da rua das Flores.
Informado de que Ferreira lançara apêlo à intervenção de Morais de Carvalho, Urbino chama de parte a sogra consternada, diz-lhe ao ouvido, em confidência:
- «O Comissário de Polícia é um canalha, um francês.não lhe diga que tratei os meninos.» - (Declarações, ibidem).
Torna em busca do colega José Carlos Lopes. Encontra-o. Acompanha-o a casa dos sogros. «Informa-o, pelo caminho, de que se trata dum envenenamento, por doces vindos de Lisboa». Indica-lhe a «marcha dos sintomas que os doentes tinham apresentado». E, como em relação aos outros clínicos, não faz referência aos clisteres subministrados aos sobrinhos.
José Carlos Lopes e Morais de Carvalho, o Comissário, surgem quase à mesma hora.
O Mestre toxicológico, ciente da morte do Mário, nem o observa. Observa as meninas, «que no momento se encontram em estado regular. E retira-se, sem designar as espécie de tóxico que as crianças tinham ingerido».
O Comissário, pôsto ao facto da ocorrência sensacional pelos médicos presentes, pregunta se «guardaram os vómitos das crianças». Indaga se a família desconfia de quem possa ser o criminoso. Dizem-lhe que desconfiam dum tio da Berta, irmão da mãe, Carlos de Almeida, funcionário do Ministério da Fazenda, em Lisboa. Berta Fernanda, que assiste ao inquérito policial, insinua «que a letra da caixa é parecida com a do tio Carlos». Aventa-se, sem consistência de maior, a hipótese do envenenamento praticado por Miss Lothie – hipótese emergente da vaga sugestão sónica de Miss Lothie e Lúcio Artins...
O Advogado Temudo Rangel, que fôra prevenido do envenenamento antes da saída do Comissário a caminho da rua das Flores, falando comêle, àcêrca do crime, lembrara Carlos de Almeida como seu suposto autor – pelo que seguira logo, com destino a Lisboa, com a indicação dessa pista, o chefe da Polícia Judiciária Cardoso Lopes.
Urbino de Freitas, à saída do Comissário e médicos, a sós com a família, declara «os colegas muito estúpidos, pois não conheceram o veneno propinado». E admite a possibilidade de ter sido Carlos de Almeida o envenenador – assinalando a semelhança entre a letra do indigitado e a do envólucro da encomenda, embora não rejeite, in limine, a presunção desfavorável a Miss Lothie.
Os jornais do Pôrto e de Lisboa, no dia 3 de Abril, noticiam o envenenamento da família Sampaio e a morte do Mário, sem aventarem a hipótese de crime.

Comments on "Grandes Dramas Judiciários: URBINO DE FREITAS (4)"

 

Blogger Nuno Maranhão said ... (abril 30, 2006 12:04 da tarde) : 

Mais episódios! :)

 

Blogger David Afonso said ... (maio 01, 2006 12:42 da manhã) : 

Todos os domingos sai um acompanhado de informação extra.

 

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