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MANDEL, Ernest - Tratado de Economia Marxista 1. Lisboa: Bertrand Editora, 1978 (272 p.)
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Fruta da época:«Um estranho paradoxo domina a atitude do mundo académico a respeito da teoria económica marxista. Ela desperta, há meio século, um interesse económico crescente e foi objecto de apaixonados debates nos meios universitários; uma economia socialista «não podia funcionar», diziam os economistas. Hoje, ninguém contesta que a teoria marxista possa inspirar (não sem êxito) a política económica dos estados, grandes ou pequenos, mas nos meios académicos ela não encontra mais que indiferença ou desdém. Se, algumas vezes, é objecto de estudos mais profundos, não é pela razão do seu valor próprio, mas como sub-ramificação dessa nova «ciencia» intitulada «sovietologia», a menos que o não seja no quadro de uma disciplina ainda mais estranha, a «marxologia»."[Apresentação][1][2][3][4][5][6][7][8]
CADETE, Eduardo Maria; ROSA, Eugénio; CAMÕES, Francisco - A política económica do Governo Provisório. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1975 (30 p.) (Col. Pontos de Vista)
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Dizia então Camões, Francisco Camões, que agora deve ser um respeitado professor de economia - aposto - mas nunca um economista - é certo - com uma desarmante evidência relativa (como é óbvio, não faço puta ideia que tal coisa seja; caramba! será que uma proposição cujo valor de verdade seja relativo, se poderá assumir alguma vez como evidente?!):
«Assim, as medidas económicas concretas verdadeiramente importantes são relativamente evidentes: - Nacionalização da banca privada;
- Controlo total do estado sobre o comércio interno dos produtos essenciais;
- Criação de uma empresa estatal que controle o comércio externo;
- Nacionalização das empresas que efectivarem despedimentos colectivos;
- Expropriação dos latifundiários que mantenham terras por cultivar;
- Proibição do «lock out» e de despedimentos sem justa causa.»
MARTINET, Gilles - Os Cinco Comunismos: Russo, Chinês, Cubano, Checo e Jugoslavo. Mem Martins: Publicações Europa-América, 1975 (301 p.), 3ª edição
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Sobre a "Festa cubana": «A revolução cubana não procedeu somente a modificações de carácter económico, pois criou também um clima de fraternidade e de esperança. Ela foi, durante um longo período, uma «festa permanente». As relações de trabalho nas empresas deixaram de ser como até então. O tema do «homem novo» ia assim tomando consistência. Mas isso não durou sempre, pois o entusiasmo não só não é eterno, como, por outro lado, é pouco produtivo. Não foram, contudo, razões exclusivamente económicas que levaram a revolução cubana a mudar de estilo. Foram também razões sociais e políticas. Como as massas não podem exercer directamente o poder e não é possível ao chefe, em última instância, tudo controlar, tornava-se necessário que surgisse uma camada dominante. Encontramos o rasto das suas primeiras manifestações a partir do início da revolução, mas é principalmente depois dos anos 1967-1968 - com o fenómeno da «militarização» - que ela se afirma com vigor.»
K. Marx, F. Engels, Lenine, J. Staline e Politzer - A Sociedade Comunista. Lisboa: J. Bragança, 1975. 318 p. (Cadernos Maria da Fonte, n.º23)
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Em tempos, isto fez sentido para alguém (está sublinhado): «Não é preciso ter uma grande perspicácia para se aperceber do necessário parentesco que têm com o socialismo e o comunismo as doutrinas materialistas sobre a bondade original e a capacidade intelectual dos homens, sobre a força toda poderosa da experiência, o hábito, a educação, a influência, a legitimidade do gozo, etc. Se o homem forma todos os seus conhecimentos, suas sensações, etc., à base do mundo dos sentidos e da experiência deste mundo, do que se trata, por conseguinte, é de organisar o mundo empírico de tal modo que o homem a conheça e assimule nele o verdadeiramente humano, que se conheça a si mesmo enquanto homem. Se o interesse bem entendido é o princípio de toda a moral, o que importa é que o interesse privado do homem coincida com o interesse humano. Se o homem não goza da liberdade no sentido materialista, quer dizer, se é livre não pela força negativa de poder evitar isto ou aquilo, senão pelo poder positivo de fazer valer a sua verdadeira individualidade, não deverão castigar-se os crimes no indivíduo, mas destruir as raízes anti-sociais do crime e dar a cada qual a margem social necessária para exteriorizar de um modo essencial a sua vida. Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente. Se o homem é social por interesse, desenvolverá a sua verdadeira natureza no seio da sociedade e somente aí, razão pela qual devemos medir o poder da sua natureza não pelo poder do indivíduo concreto, mas pelo poder da sociedade.» (Marx e Engels)
OLIVEIRA, César - A Revolução Russa na imprensa portuguesa da época. Lisboa: Diabril Editora, Maio 1976. 171 p. (Col. «Teoria e Prática», 13)
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Este também não é um exemplar perfeito da minha Biblioteca Vermelha. Já me tinha esquecido dele. Bem, na verdade, nem me lembro de o ter comprado (por 70$00, segundo uma anotação a lápis feita pelo livreiro), mas foi uma grande compra e já foi promovido à minha Biblioteca da História do Livro e da Imprensa. César Oliveira, representante de uma historiografia marcadamente ideológica (e qual não o é?) foi responsável por títulos como A Comuna de Paris e os Socialistas Portugueses, O Congresso Sindicalista de 1911, O Socialismo em Portugal, 1850-1900 e um já esquecido A Crise da Revolução com Eduardo Lourenço e Eduardo Prado Coelho em 1976, entre outros títulos. Esta obra em particular é constituída por três artigos, o artigo que dá o título ao livro mais estes dois: Imprensa operária no Portugal oiticentista: de 1825 a 1905 e Os limites e a ambiguidade: o Movimento Operário Português durante a guerra de 1914-18. Datado? Talvez, mas sempre valioso.
CARVALHO, J. M. - O Terror Gonçalvista. Lisboa: Livraria Popular Francisco Franco, 1976 (69 p.)
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Este exemplar é tudo menos vermelho. Em todo o caso é fruta da época. A propósito de algumas considerações zoológicas sobre Vasco Gonçalves, que indignaram muitaboagente, resolvi desta vez partilhar com os dolosos leitores esta curiosa publicação. A capa já é qualquer coisa, mas o intróito ainda o é mais!
“O «Carnaval» gonçalvista chegou ao fim deixando por herança a demagogia sabiamente criada, os cofres vazios e a «austeridade», palavra cuja tradução popular se resume à comesinha frase: «Apertar os cintos!» Os cintos de Vasco Gonçalves e os dos seus mentores ou manobradores bem como os de todos os «progressistas» de destaque não sofrerão muito o aperto, porque se trata, por via da regra, de «trabalhadores» bem instalados na vida”.
WILLARD, Claude - O Socialismo: do Renascimento aos nossos dias (2ª edição). Mem Martins: Publicações Europa-América, 1975. 168 p. (Col. Saber, nº 73)
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Claude Willard para além de grande especialista na história do género, é também presidente da associação Les Amis de la Commune de Paris. Vale bem a pena a consulta. Entretanto fica aqui uma amostra de arqueologia de história das ideias políticas:
«O socialismo, para além de concepção socioeconómica, é também realidade política cujo peso e influência no mundo dos nossos dias não podem ser menosprezados e muito menos ignorados. Mas, se a ascensão das correntes socialistas é fenómeno relativamente recente, as suas preocupações fundamentais alimentam-se de profundas raízes históricas, cujo conhecimento facilita indibitavelmente a compreensão da realidade actual.»
ENGELS, F. - Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico: Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Porto (?): Edição de M. Guedes, 1975. 191 p. (Col. Textos Políticos 6)
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Como acaba o livro? Bom, assim mesmo:
«Só na classe operária perdura, sem decair, o senso teórico alemão. Aqui, nada há que possa extirpá-lo; aqui, não há margem para preocupação de arrivismo e de lucro e de pritecção vinda de cima; pelo contrário, quanto mais audazes e intrépidos são os avanços da ciência, melhor se harmonizam com os interesses e as aspirações dos operários. A nova tendência, que descobriu na história da evolução do trabalho a chave que permite compreender a história da sociedade, dirigiu-se de preferência, desde o primeiro instante, à classe operária e encontrou nel um acolhimento que não procurava e não esperava na ciência oficial. O movimento operário alemão é o herdeiro da filosofia clássica alemã.»
AAVV - LENINE, ESTALINE, KAPSOUKAS, BETTELHEIM E FABRÈGUES. . Lisboa: J. Bragança editor, 1975. 144 p. (Col. Via Operária, dir. J. Luciano)
Desta obra vale a pena reter a apresentação. Como agora de diz: é toda ela um programa.
«Com esta primeira edição, inicia-se uma nova série de publicações Marxistas, com o objectivo de virem a contribuir para a formação política e ideológica de militantes sinceramente dedicados à causa do proletariado. Isto porque a leitura sem a prática revolucionária conduz ao diletantismo burguês, tão caro a certo tipo de intelectuais que papagueiam nos cafés, e a certo tipo de estudantes que pontificam no seu grupinho armados em apóstolos da luta do proletariado português. Nestes casos tão típicos o que se verifica é o «empaturramento», a indigestão de literatura marxista-leninista. «Via operária» não pretende contribuir para maiores indigestões, por isso lança a palavra de ordem para que os operários que leiam estes cadernos formem grupos de leitura. Que cada grupo de leitura seja formado na base de um trabalho colectivo em luta contra a exploração capitalista, em luta pela democracia proletária na instauração de uma sociedade verdadeiramente democrática, sem exploradores e explorados.»
Durante os anos de 1989 e 1990 calhou-me salvar uma biblioteca vermelha. Andava eu então nos últimos dois anos do ensino secundário quando, ao bisbilhotar nas prateleiras de uma livraria situada perto da Estação da CP de Aveiro (chamar-se-ia Livraria Avenida?), encontrei centenas de livros de doutrina marxista-leninista, maoista, trotskista, estalinista e sabe-se lá o que mais. O caso é que o destino daqueles livros seria a destruição se ninguém nada fizesse por eles, isto é, se não os levasse para casa. Senti um aperto no coração, não porque me imaginasse a mergulhar de cabeça naquela versão política da literatura de cordel, mas porque pressenti ali um crime lesa-memória. Moralmente não podia deixar que aquilo tudo fosse para o lixo. Tinha acabado de ver Fahrenheit 451 de François Truffaut na televisão e imaginei-me ali na posição de Montag. Cumpri então a minha missão. Não salvei todos e dos que salvei muitos tiveram o destino natural dos livros: o de serem emprestados para nunca mais serem devolvidos. Dentro deste filão há que destacar o lote dos livros situacionistas e anarquistas. Mais leves e mais voláteis que os restantes salvados, poucos ou nenhuns permaneceram até aos dias de hoje nas minhas mãos. Em todo o caso, tenho uma Biblioteca Vermelha que estimo não tanto pelo que ela possa ensinar, mas pelo testemunho que possa dar de uma época que o país teve muita pressa em esquecer. Nos finais dos anos 80, menos de duas décadas passadas do PREC, ali andavam os livros revolucionários esquecidos, renegados, desclassificados. É apenas espuma, senhor. É apenas história