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Não sei se ainda se lembram disto. Nessa ocasião fiz uma exposição por escrito aos serviços do museu (em português, claro) na qual comuniquei o meu desagrado por duas coisas, a saber: 1) Pedi que fosse corrigida a informação disponibilizada ao visitante nos audio-guias sobre a obra de Karl Briulov porque, em definitivo, Camões não foi um poeta romântico português; 2) Apesar existir ainda muita informação, impressa ou audio, sobre as exposições em várias línguas (incluíndo o euskara e o galego), em português nada!
Pois bem, o sr. Xabier Pérez-Gaubeka, Director de Desarrollo do museu, respondeu às minhas reclamações. Quanto ao primeiro ponto desculpou-se, dizendo que «el Museo Guggenheim Bilbao es una entidad joven». Pois bem, eu acho que a juventude não desculpa tudo. Quem se propõe a oferecer um produto cultural e cobrar 12 euros à cabeça, tem de garantir o rigor científico dos dados que fornece ao consumidor. Hoje, graças à contra-informação do Guggenheim Bilbao milhares de cidadãos de todo o mundo tomam Camões por um poeta do romantismo. Enfim, são apenas quase três séculos...
Quanto ao segundo ponto da minha reclamação, a resposta é lacónica mas suficientemente clara para bom entendedor: «No obstante tomamos en cuenta su petición». Está bem está.
Faço aqui uma sugestão a todos aqueles que vierem a visitar esta instituição nos próximos tempos: reclamem, protestem, exijam que seja disponibilizada informação em português. Não podemos deixar que nos releguem para a invisibilidade cultural. Mas façam a reclamação sempre em português!
[OBS: a carta que me foi enviada é bilingue, isto é, em euskara e castelhano...]
O centro histórico de Bilbao é irrelevante. Está bem cuidado e habitado, é certo, mas, por si só, não merece uma deslocação. Achei particularmente interessante o mercado. É belo, muito belo. Sempre que visito uma cidade faço o possível para visitar o(s) seu(s) mercado(s). Havia um historiador célebre (“cujo nome não me quero recordar agora”, como dizia Borges) que afirmava qualquer coisa do género: «A melhor método para conhecer a história de uma cidade, é visitar o mercado». Já as cidades são outras cidades e os mercados outros (super)mercados, mas mesmo assim vale sempre a pena. O Mercado de la Ribera é o único que conheço localizado à beira rio (ou melhor: ria). Não está em melhor estado do que o nosso Bolhão e a reabilitação é urgente. Sinal dos tempos, o espaço não está todo ocupado, havendo bancas por preencher. Talvez não fosse má ideia os bascos (e tripeiros e aveirenses e lisboetas e..., já agora....) darem uma saltada aos mercados catalães para aprenderem umas coisas.... Fiquei intrigado com uma coisa: na zona dedicada ao pescado fresco (ai ai, que o meu sangue gafanhão me arrasta sempre para aqui...) encontramos uma grande (muito grande mesmo) variadade de peixe, predominando, no entanto, o bonito do Cantábrico (espécie de atum...). Não há banca de peixe que não exponha meia dúzia de exemplares, pelo menos, com diferentes tamanhos. É um regalo! Todavia, nas visitas que fiz a vários restaurantes em Bilbao (uns 5 ou 6) não descortinei a presença de pratos à base de atum fresco (ou bonito freco...) na ementa. Não entendo porquê! Até porque, levado pela curiosidade (ou pelo “mau feitio” como diz a minha mulher...) fui tirar a limpo esta história toda e descobri nos guias gastronómicos que o atum (bonito...) é um prato de excelência da tradição culinária do País Basco. Para azar meu, em Bilbao, pelos vistos, só para exposição e não para consumo.
Ao ler o post do Raposo ocorreu-me isto: um português em Bilbao está a sempre a tropeçar num pouco de Portugal. Trata-se da Naturgas, uma empresa do grupo EDP, que adquiriu a Bilbogas. É, actualmente, o líder do sector do gás no País Basco. Não há maneira de nos passar despercebido porque usa o mesmo logotipo daquela factura desmesurada que recebemos de dois em dois meses nas nossas casas. Só que em azul...
2. As crianças são omnipresentes. Estão por todo o lado: junto à ria, na Plaza Nueva, na Gran Via, quase sempre acompanhadas pelos avós. Na altura pensei que o País Basco devia ter uma taxa de natalidade acima da média, mas – uma vez feitas as devidas averiguações – constatei que não. Bem antes pelo contrário: os bascos têm uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo! Em Portugal a taxa de natalidade está na casa do 10,5 por mil habitantes, ligeiramente a baixo do total de Espanha, que se situa nos 10,9. Ora, qual é a taxa de natalidade do País Basco? 8,4 por mil habitantes! (olhando para estes dados e tendo em consideração a pujança económica daquela região espanhola, atrever-me-ia a afirmar que se trata, já num futuro próximo, de um destino migratório muito apetecível, especialmente para a mão-de-obra qualificada...).
Mas então como explicar esta canalhada toda? Ocorrem-me quatro possibilidades: 1) Talvez 2005/2006 tenham sido anos particularmente produtivos para os casais bascos; 2) Ou este crescimento infantil já tenha a ver com a importação de mão-de-obra do resto do país (e não só); 3) Ou existe uma política local bem implantada de apoio à natalidade e à educação; 4) Ou os bascos, pura e simplesmente, são uns exibicionistas que gostam de mostrar a toda a gente as suas pequenas preciosidades. O mais natural é que a solução para o enigma tenha a ver com todas estas possibilidades. Inclino-me para a hipótese de a terceira possibilidade ser particularmente relevante. Não é por nada, mas a quantidade de parques-infantis e campos de jogos que existem nesta cidade, denota um cuidado muito grande para com as famílias e para com as crianças, cuidado esse que não vejo, por exemplo, na minha cidade, no Porto (desafio alguém a nomear pelo menos três parques infantis no centro da cidade...). E reparem que as autoridades municipais não têm qualquer problema em instalar parques infantis em qualquer parte da cidade. Há um espaço livre junto a um quarteirão residencial? Parque nele!
1. Em Bilbao sabe bem caminhar. As ruas são arejadas, impecavelmente limpas e com árvores (Estão mesmo por todo o lado! Aqui ainda não chegou a moda da cidade despida...) e bancos para descansar. Andar de bicicleta também é uma boa opção. Seja lá como for, é uma delícia caminhar à beira ria. Temos muito que aprender com estes tipos.
A Bilbao vai-se para ver o Guggenheim e, com alguma sorte, uma qualquer exposição interessante no Museo de Bellas Artes de Bilbao. Eu tive sorte porque apanhei o Malévich quase integral (mais de 100 obras!). Por aí a viagem já teria valido a pena. E é de referir que vi Malévich de graça (!) porque às quartas-feiras a entrada é gratuita para todos (Serralves, por exemplo, só oferece esta regalia aos domingos de manhã). Mas o prato forte é e será sempre o projecto de Frank Gehry e, eventualmente, a exposição temporária que se encontra lá dentro, para além da obra residente de Richard Serra (ver fotos clandestinas;). Desta feita também fui bafejado pela sorte porque a exposição temporária era apenas RUSSIA! – uma gigantesca retrospectiva da arte russa desde os ícones e arte sacra até à arte contemporânea, passando pelos vários ismos sem esquecer, claro está, o realismo socialista (meus caros, ver a arte estalinista ao vivo é outra fruta...). É uma das exposições mais importantes a decorrer na Europa, não só pela relevância histórica e estética dos exemplares expostos, como também porque se trata da única oportunidade de os vermos todos reunidos. Se assim não fosse, para ver as obras aqui expostas teriamos de fazer um périplo por vários museus russos, europeus e americanos.
Agora devo dizer que os portugueses não saiem lá muito bem tratados do Guggenheim. Apesar de existir informação impressa em várias línguas, incluíndo em Galego e em Euskara, português nada! A situação repete-se também no serviço de audio-guia. É claro que apontei na ocasião esta falha e a resposta que me foi dada não me satisfez. Segundo os serviços do museu a inexistência de informação em português deve-se ao facto de existirem poucos turistas portugueses. Ora, ao que parece os serviços de turismo de Euskadi não estão de acordo com o Guggenheim, já que têm à nossa disposição toda a informação da praxe em boa língua lusa. Aliás, eu próprio constatei a presença de muitos (pá, mesmo, mesmo muitos...) portugueses nas ruas de Bilbao e no hotel onde fiquei hospedado. Ainda por cima somos vizinhos! E uma língua transcontinental, caramba! Não somos propriamente uma lingua perdida no norte de espanha que ninguém fala... Bom, mas há mais: enquanto admirava o quadro pintado por Karl Briulov em 1834, inspirado no episódio de Inês de Castro, apercebi-me de uma besteira sem tamanho. O audio-guia «explicava» que se tratava de uma obra inspirada nos versos de um poeta romântico português chamado Luís de Camões! Luís de Camões poeta romântico! Essa é boa! Este espanhóis têm cá uma graça...
(Este nosso amigo galego também gostou do quadro – ou do motivo? – mas não se apercebeu da gralha. Nem os galegos nos valem?...)
Uma semana de férias é um luxo que não dá para muito, pelo que eu e a minha mulher optámos por dar uma saltada a Bilbao. Boa opção, mas muito cansativa e por culpa minha. É que lá consegui convencer a Adriana a preterir o automóvel ou o avião a favor do comboio. Gosto de viajar de comboio, que querem? As cerca de 10 horas de viagem não nos assustaram por aí além, até porque havia muitas leituras a pôr em dia. O inenarrável comboio suburbano Porto-Vigo era um mal com o qual já contávamos, mas a composição que faz o serviço diário Vigo-Bilbao foi uma surpresa daquelas. Só oferece a classe Turística e utiliza uns vagões datados dos anos 80, o que nos propiciou uma verdadeira viagem no tempo. A máquina uma Mitsubishi 269-413 também ela fabricada nos anos 80 cumpriu corajosamente a sua tarefa. O pior estava para vir. No meio de nada, algures entre Léon e Burgos, em paragens sem alma cristã à vista, o nosso comboio, contrariando todas as probabilidades, atropelou uma pessoa. Suicida? Talvez, seria muito azar ser atropelado por acidente ali, no meio de nada. Soubémos da alhada pelo responsável do wagon-bar que percorreu os corredores a vociferar uns quantos «puta-madre, que ha morrido um hombre». Por ali ficámos, à espera de auxílio que demorou quase duas horas (!) a chegar. A Bilbao chegou-se muito tarde e com o humor destroçado.
[Na foto: o comboio-assassino já estacionado na estação de Bilbo-Abando]