O Dolo Eventual convida todos os seus leitores ao envio de fotografias de rotundas de todos os pontos do país, com referência, se possível, à sua localização (freguesia, concelho, distrito), autoria da foto e quaisquer dados adicionais para rotundas@gmail.com
Não me choca particularmente ter um Presidente que é simultaneamente líder de uma organização internacional de assistência humanitária em cenários de crise. Houve para ai um candidato a fincar pé na sua distância dos partidos e nas suas propriedades suprapartidárias e que até foi eleito, por isso não é razoável que critiquemos um candidato genuinamente suprapartidário, que até se define como apartidário, precisamente por ele não estar manchado pelo pecado original da política. Pelos vistos os portugueses consideram haver mercado para este tipo de candidaturas. Até mesmo Alegre ensaia muitas vezes o discurso do suprapartidarismo para encenar a sua recandidatura a Belém. Realmente esta candidatura não facilita a vida à esquerda. Mas também reconheçamos que em principio não se trata de uma candidatura de esquerda, a confiar no pressuposto da sua independência em relação a partidos, mas sim uma candidatura em que muita gente de esquerda se possa rever. Mas como em relação à independência do actual inquilino de Belém, só se deixa enganar quem quiser. Se hoje à noite no Padrão dos descobrimentos (que simbólico…) assistirmos ao nascimento de uma campanha já perfeitamente estruturada com resposta às questões que inquietam os portugueses, com recurso à mais fina-flor do marketing político em vez de uma campanha de valores em que esta candidatura parece querer inspirar-se, então saberemos que Nobre não está sozinho.
Isto está bom demais, para eu estar aqui sossegado armado em observador. O Primeiro-Ministro insulta o Presidente em conversa privada com arguido de processo de sucatas que ainda não o era. Sucateiro suborna, alegadamente, vários gestores públicos rosa para o tratamento da dita sucata e tudo acaba por afinal redundar na responsabilidade política de um primeiro-ministro ,responsável por um plano do qual aparentemente nunca falou, mas que motivou outros leais funcionários rosa a executar. Pelo meio o pobre das sucatas apodrece em preventiva. Os outros todos de fora juram a sua inocência à mesa de uns robalinhos. O alentejano sente-se encornado, o jovem gestor jura limpar a honra e a PT revela-se como aquilo que sempre foi, um instrumento. O Noronha afirma que as 12 escutas ao primeiro estão feridas de nulidade porque ninguém lhe pediu autorização para ouvir o primeiro e ignora o conteúdo. O Monteiro mete os pés pelas mãos, diz que por ele se divulgava e depois quer destruí-las, diz que não há lá crime contra o estado de direito, mas acaba por dizer que isso de influenciar jornalistas não prejudica o estado e é até uma velha estratégia... Depois vêm os chutos na bola (ou o barro à parede,) com figos de notícias que variam entre subornos (ou contratos) entre 750.000€ e 150.000€, através da escolinha ou da offshore. Os blogues, responsáveis há bastante tempo de muito o que vai aparecendo nos jornais, vão ficando em cheque e o Galamba já parece o pivot da informação do governo, pelo menos a ter confiança no tal do Santos que afinal parece que era Abrantes. É também pela blogosfera que os directores de jornais (a reserva moral da nação) começam a atacar caixas de comentários quando não gostam do que lêem. Afinal há mais gente a tentar pressionar por onde pode, enquanto o negócio das t-shirts floresce... Por estas e por outras razões vou ocupar-me um bocadinho por aqui enquanto me for humanamente possível, sem qualquer compromisso de permanência.
O veto presidencial à revisão da lei das uniões de facto não só representa uma visão conservadora e desfasada da realidade social do país, para além de ser um favor à direita dos costumes e aos bispos, mas também representa uma expressão dos desejos presidenciais da alteração das maiorias parlamentares a partir de 27 de Setembro. Para o Presidente não se justifica aprovar nos últimos meses de mandato do governo, uma lei que uma maioria de esquerda aprovou mas que uma maioria de direita rejeitaria. Belém tem a expectativa, a meu ver errada, que o sentido da maioria vai mudar em Setembro e que esta matéria cairá no esquecimento. Ora muito provavelmente o Presidente erra porque a maioria parlamentar continuará a ser de esquerda, independentemente de quem vier a ganhar as eleições. Dessa forma Belém prefere afastar-se do tradicional papel de árbitro, acima das quezílias da política menor, para apostar forte nos jockeys que representam os partidos da direita. Apostar desta forma não só é contrário aos costumes, como não é prudente a um candidato à reeleição.
Já gastámos horas de discussão sobre a legitimidade dos governos de gestão. Todos mais ou menos concordamos que governos que por uma ou outra razão acabam por cair por si ou por acção de outra partes, ou ainda que simplesmente aguardam a tomada de posse de outros governantes, não têm a mesma legitimidade política para fazer alterações legislativas profundas, caso contrário os seus governos não seriam de gestão. Ontem ficámos a saber que os governos legítima e democraticamente eleitos, sem qualquer instabilidade parlamentar que os ameace ou sem qualquer processo de dissolução da assembleia / demissão do governo, estão feridos de legitimidade politica a partir de um prazo de validade não definido, mas utilizado indiscriminadamente pelo Presidente. Falta precisamente um mês para as eleições e este governo está destituído da sua capacidade legislativa porque Belém quer. PSD e CDS agradecem.
Que saudades do caso Freeport. Já quase há dois meses que não tínhamos uma notícia fresca sobre este assunto e o eventual envolvimento do primeiro-ministro.
A um mês das eleições parece mesmo ser a altura ideal para não dar aquela ideia que se está a tentar lixar o homem. Assim tem o impacto que se quer mas não dá muitos argumentos para falar na campanha negra.
Importante é destacar na primeira página o nome de José Sócrates e de Carlos Guerra, muito embora a notícia seja realmente sobre Carlos Guerra e José Sócrates seja o ministro para quem ele trabalhava na altura.
O artigo de opinião de Sócrates, hoje no JN, para além de particularmente invulgar, não me recordo de primeiros-ministros em exercício o fazerem, apesar de ser relativamente comum em putativos candidatos a Presidente da República, é um texto inteligente, bem organizado e pelo menos é esclarecedor sobre as intenções de Sócrates para uma eventual renovação da maioria socialista. No entanto, a escolha decisiva pode constituir uma escolha arriscada. Sócrates pretende reafirmar a matriz de esquerda do seu governo, ao mesmo tempo que apenas dispensa criticas à possibilidade de a alternativa parlamentar ao PS ser uma maioria de direita. Ora a análise que parece emergir deste artigo é que Sócrates não vê como é que os partidos à esquerda do PS possam constituir um problema, convencido que está que o povo de esquerda vai dar-lhe o seu voto útil caso ele consiga fazer passar a mensagem que entre Sócrates e o caos da direita liberal, que protege os empresários e a iniciativa privada, não há alternativa.
Isto até poderá fazer sentido em termos de estratégia politica, mas se ao contrário de eleições anteriores não existir uma concentração de voto nos dois maiores partidos, como parecem indicar algumas sondagens, é bom que Sócrates se prepare para engolir uns bons sapos de esquerda.
E a diversão continua. Manuel Pinho não deveria ter saído por causa do detalhe tauromáquico de ontem no Parlamento. Como já disse por aqui, ele deveria ter saído desde que protagonizou o incidente da mão de obra barata na China, até porque já na altura, que agora parece distante, havia um acumular de situações infelizes e de uma incapacidade total de lidar com os jornalistas e a oposição. No fundo deveria ter saído por incompetência e não por qualquer gesto menos ponderado no debate do estado da nação. Confesso que não estive atento ao debate, mas no regresso a casa liguei a TSF no carro e já estava instalada a confusão. Estive pelo menos uma boa meia hora sem perceber o que realmente se tinha passado. A minha primeira ideia foi que tinham finalmente chegado a vias de facto e que o Parlamento português iria passar a acompanhar o coreano naquelas bonitas imagens de virilidade politica. Mas não, os jornalistas apenas falavam num gesto que a todos chocou e que forçava as desculpas do primeiro-ministro. Nessa altura ainda tinha a réstia de esperança que Manuel Pinho tivesse exibido um certo dedo à bancada do PCP, mas chegado a casa e vendo as imagens fiquei muito desiludido. Afinal era um episódio tauromáquico ao qual Bernardino Soares se esqueceu de corresponder com a pose forcado, mãos nos quadris e a gritar Eh touro lindo… Foi pena, teria sido muito mais interessante. Bom, mais a sério não havia condições para manter Manuel Pinho no governo. O Parlamento é a sede do poder representativo do povo e por isso mesmo deve ser respeitado, assim como todos aqueles que o povo elegeu independentemente da sua cor partidária. E este debate, além deste episódio, deixou muito a desejar em matéria de respeito uns pelos outros. Foi na realidade um espectáculo muito triste. Ainda assim, e mesmo que o dito acto tenha sido protagonizado por um ministro, é importante recordar que o respeito que o Parlamento merece não compete exclusivamente ao governo mas também a todos os deputados. Todos nos recordamos que o novo grande justiceiro retórico do país, considerou lamentável o episódio protagonizado pelo deputado José Eduardo Martins em relação a Afonso Candal, em que o primeiro não recorreu a gestos, antes proferiu vários insultos no plenário chegando a ameaçar o deputado do PS na melhor tradição marialva de que o nosso Parlamento continua cheio, e Paulo Rangel não tirou quaisquer ilações politicas desse acontecimento.
O Governo é acusado de mentir quando refere o desconhecimento da compra de 30% da Media Capital pela PT (tb tenho cá as minhas dúvidas). Actua em tempo recorde para o que estamos habituados e é acusado de ingerência numa empresa "privada", pelos que anteriormente clamavam por essa intervenção, mas que na realidade nunca gostaram das Golden Shares (pelo menos quando estão na oposição). O Presidente clama pela transparência do negócio, mas esquece ter vetado duas vezes (a este governo) uma lei que limitava a concentração de meios de comunicação social e principalmente impunha limites à propriedade destes pelo Estado, sob o pressuposto que nunca se sabe se no futuro não pode vir a dar jeito ou a ser necessário ter jornais e televisões. A Manuela que por se ter posto fim ao negócio reivindica ser possuidora de todas as certezas e razões de aqui e de além mar, vem a saber-se ser a responsável por autorizar um negócio ruinoso para os cofres do estado com a venda da rede fixa à PTcomunicações, mas enche a boca para falar em endividamento.
Há nestas questão da marcação das datas para as eleições legislativas e autárquicas algo que encontra um eco no cada vez mais forte discurso anti-partidos, que é a ideia que isto de fazer eleições não passa de uma grande maçada que podíamos perfeitamente evitar e que por isso o melhor de todos os mundos era despachar tudo num só dia para depois nos deixarem em paz. Ou em alternativa questionar o custo de fazer eleições, o que me parece um argumento particularmente inválido, até porque facilmente alguém poderá vir a argumentar que aquilo que realmente fica mais em conta é não as fazer de todo. Isto nada tem a ver com a discussão séria e perfeitamente aceitável de argumentos em torno da utilidade política de ter estas eleições em conjunto ou separadas, tendo em conta o diferente carácter destas eleições e tendo em conta o entendimento de alguns que o poder local é fundamental ao aprofundamento desta democracia, como órgãos políticos mais próximos das populações e que por isso estas eleições não deveriam ser subalternizadas em relação às legislativas. O que é pena é o Presidente da República ter já manifestado publicamente o seu interesse em ter estas eleições no mesmo dia, referenciando sondagens que apontam para um interesse dos portugueses em apenas se darem ao trabalho de se deslocarem às urnas num único dia. É um favor que o Presidente faz à descredibilização do sistema político e dos políticos, com base em sondagens que como se verificou nas europeias nem sempre se confirmam nas urnas, mas que ainda assim motivam o Presidente a falar quando a sua imagem de marca é precisamente o silêncio. Não é naturalmente causal. Mas a questão de fundo quanto à data das eleições é outra muito mais importante. É a de saber se realmente se justifica ou se faz sentido que num no prazo de um ano se façam 4 eleições como em 2005/2006, ou agora com 3. As eleições, além de fundamentais ao normal funcionamento do estado democrático, são um indicador muito mais correcto do sentir dos portugueses em relação ao poder político, que ainda que todas as sondagens possam querer replicar não o fazem com a fiabilidade e legitimidade das eleições. Portugal esteve 3 anos completos sem uma única eleição, enquanto governava uma maioria absoluta, enquanto surgiu uma forte contestação social e entrámos numa crise ainda maior que a habitual. E nenhum instrumento conseguiu com clareza dizer-nos o que pensavam os portugueses, arrastando-nos para uma daquelas situações spinolistas da maioria silenciosa. O país tinha votado uma maioria absoluta, e um presidente que dava jeito a essa maioria. A contestação nas ruas, maior ou menor, era motivada por interesses corporativos de algumas classes e por sindicatos ligados à central sindical controlada pelo PCP e o resto do país observava à distância manifestando nas sondagens o interesse de manter o PS com a maioria absoluta ou muito perto dela.
Ora a maioria silenciosa falou e os resultados não são os esperados e políticos e comunicação social foram apanhados de surpresa.
Tirar como ilação das eleições europeias, a paragem (novamente) de grandes projectos que estão no centro dos planos europeus de combate à crise, e que são como de costume a forma da esquerda, e mais recentemente da direita, de defender a necessidade do investimento público e de seguida colocar um travão a fundo em quase tudo, assumindo uma mea culpa envergonhada sobre as reformas praticadas, significa o regresso do pântano mas sem demissão do governo. O país encontra-se em auto-gestão, a banhos, sem pensar na crise. Não se faz, nem se mexe em nada a ver se lá para Outubro acaba o sofrimento de alguns dos ministros deste governo. É normal que Louçã sonhe com a chefia do governo e que na São Caetano à Lapa a questão menos importante seja a falta de ideias para o país.
Hoje acaba a campanha, e para além de ser notório que esta rapariga tem muito bom aspecto, não percebi ainda quem é, o que faz nesta campanha ou se alguém alguma vez já a ouviu falar? Tudo o que vi dela nestas últimas semanas foi um ligeiro aceno afirmativo de cabeça sobre o ombro de Miguel Portas. Não será uma aposta um pouco estranha do Bloco ter uma nº 2, que aparentemente eles querem muito eleger e depois ela não dizer nada ao longo de duas semanas?
Lá se falhou novamente a eleição do novo Provedor. Há responsabilidades diversas a retirar sobre este insucesso. Logo os primeiros responsáveis são os partidos do bloco central que falharam na criação de alternativas, obrigados que estão à eleição por maioria qualificada de dois terços.
Há responsabilidades do PCP que tendo visto o seu candidato eliminado na primeira volta, preferiu fazer parte do problema em vez de resolver de vez este assunto e talvez colher dividendos políticos pelo sentido de Estado que isso poderia revelar. Mas o que mais choca nesta eleição não é ela ter sido feita, porque sempre que existe um processo eleitoral claro e transparente a democracia sai fortalecida, nem estar a ser feito tardiamente para um provedor que já há dez meses terminou o seu mandato.
O que mais choca, pelo menos a mim, é terem existido 8 votos nulos. É importante perceber o que estão 8 deputados a fazer no parlamento. Ou sofrem de algum problema de saúde grave que os impede de assinalar correctamente no quadrado correspondente a cruz que assinala a sua preferência, ou simplesmente estão a gozar connosco. Não é compreensível, nem se quer aceitável que seja possível que 8 deputados optem por rasurar o seu boletim, para não imaginarmos outros disparates, e dessa forma demonstrarem algum tipo de protesto ou reivindicação que doutra forma não o possam fazer, o que é absurdo.
Claro que o voto é secreto e ninguém deve sofrer represálias pelo que entende fazer com o seu voto. Mas esta irresponsabilidade deveria oportunamente ter sido motivo para um puxão de orelhas de Jaime Gama.
"Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor" - William de Ockham
Todos os líderes partidários têm acompanhado os seus candidatos às Europeias. Todos menos Manuela Ferreira Leite. A explicação mais simples é a melhor. Manuela Ferreira Leite continua a ter sobre as actividades de campanha em que se vê forçada a misturar-se com a populaça, uma espécie de arrogância, sobranceria e medo, que parece que só poderá resolver-se até Outubro com alguma ajuda psiquiátrica.
O artista era um bom artista. A ideia era uma boa ideia, mas Vital Moreira apesar de no início ter sido estrategicamente uma boa jogada de Sócrates para agradar à ala esquerda, revelou-se muito menos telegénico do que era necessário, mesmo quando leva porrada. A imagem vende muito mais do que as ideias e nesta campanha europeia elas são todas genericamente muito fraquinhas.
Por isso a presença de Rangel na sua disputa directa com Sócrates (não era suposto ser a Manela a fazer esse papel?), num estilo vou-partir-a-louça-toda porque o país está a desfazer-se em relativismo moral, vende mais telejornais, ainda que aquilo que ele diga possa não fazer muito sentido.
P.S: (O post-scriptum), quem inventou a presença do primeiro-ministro no parlamento nos moldes actuais foi o PS (o partido), era bom que quem invoca a presença do primeiro-ministro no parlamento só para dar um festival maior e desviar a atenção das europeias, tenha isso em consideração...
Por falar em devolver a democracia aos cidadãos, ou como seria bom a existência de candidaturas independentes ao parlamento, é sempre bom pensar no que realmente motiva o afastamento que a generalidade das pessoas sente em relação aos políticos. Sem querer discorrer muito sobre as causas desse afastamento, digamos antes que existem duas de muitas causas, que aqui podemos identificar, como a corrupção e uma ideia generalizada que a política e os políticos estão ao serviço dos grandes interesses económicos contra a generalidade dos cidadãos que acaba sempre por pagar a crise (esta e as outras). E é sobre este assunto que me parece difícil, ou até perigoso, a existência de candidaturas unipessoais, ou chamadas independentes ao parlamento, sem que para tal se tenha especial cuidado com a manipulação de grupos de interesse. Reconheço a necessidade de uma sociedade civil (como agora se chama) forte e participativa, e reconheço a inevitável necessidade de o poder político receber e aceitar esses estímulos, e criar formas de lhes corresponder. Mas Portugal não é um bom exemplo da entrada de grupos de interesse nos partidos políticos ou de candidaturas pseudo-independentes. Não percamos tempo com os candidatos autárquicos corruptos ou a corromper, fugidos ou expulsos dos partidos de origem. Para lá do financiamento ilegal já provado nalguns casos e a porta escancarada do dinheiro vivo que a nova lei permite, o grave é tornar-se evidente que partidos portugueses sofrem de fragilidades que os podem levar a ser adquiridos hostilmente por grupos de interesses mais ou menos obscuros.
Foi o caso do PRD comprado por um grupo de interesse de extrema-direita neo-nazi que o transformou em PNR, e parece ser agora o caso do MPT pelo movimento Libertas.eu, que ainda não se sabe bem qual o projecto, embora já tenhamos a certeza que são anti-europeus. O que estes casos têm em comum nada tem a ver com princípios, ideologias ou proximidade de programas políticos. O que está aqui em causa é que há quem com dinheiro force a sua entrada na política ao abrigo de interesses que a generalidade de nós desconhecemos. E se deixarmos que existam candidaturas unipessoais ou candidaturas independentes de grupos de cidadãos? Podemos estar seguros que se os partidos estão a soldo do dinheiro fácil, os cidadãos não serão susceptíveis de ser também corrompidos por interesses económicos ou políticos? Nessa altura teremos aprofundado ou afundado a nossa democracia?
Ainda nenhum de nós por aqui se lembrou do último episódio Alegre. Sem prejuízo de até termos opiniões diferentes sobre o assunto, isso provavelmente mostra como irrelevante é a novela que o deputado-poeta pretendeu criar à sua volta, e que acaba por terminar em vale de lágrimas para alguma dessa esquerda que o acompanha. Alegre não conseguiu afirmar a ideia peregrina que encabeçava uma espécie de partido unipessoal, em que ele e o seu alter-ego genial e presidencial, seria capaz de negociar directamente com o PS, convencendo Sócrates a fazer cedências à força do seu milhão e meio de votos. Não o conseguiu com o PS nem com ninguém, nessa extemporânea iniciativa que é o encontro das esquerdas. Aliás o Bloco e mais concretamente o Francisco Louçã, seriam tontos se cedessem algum tipo de terreno incerto a Alegre perante um cada vez mais certo sucesso eleitoral. Louçã fez aquilo que lhe competia e abraçou a ideia que Alegre poderia deixar o PS e juntar-se-lhe no Bloco, mas não podia deixar que o partido unipessoal Alegre condicionasse a sua estratégia. A Alegre não restou qualquer outro tipo de alternativa. Não tendo receptividade de nenhum partido de esquerda à totalidade das suas ideias, resolve manter-se no PS onde acabará os seus dias, e reservar para mais tarde o seu milhão e meio. Agora, ou o deputado pretende até ao final desta legislatura continuar a fazer a vida negra a Sócrates, minando sempre que possível a sua maioria absoluta, que aparentemente lhe cria anti-corpos, esgotando-se lá para depois de Outubro, ou então vai guardar-se para as presidenciais de 2011, na esperança que a memória curta do PS tenha entretanto apagado os ataques violentos desta legislatura. Ora em qualquer dos cenários o tempo de Alegre acabou. Quem, nos partidos e fora deles, entende o eleitorado deste país, sabe que não é possível fazer valer a ideia de um milhão e meio de votos durante cinco anos e muito menos é expectável que haja um lugar presidencial para Alegre em 2011, a não ser que este conscientemente se ofereça para sacrifício.
Fora do parlamento a partir de Outubro, Alegre torna-se um candidato à irrelevância. Os que geralmente alinham com ele no grupo parlamentar ou não estarão nas listas ou simplesmente não irão votar como o deputado gostaria. Alegre livre do jugo da disciplina partidária só tem um caminho para continuar a divulgar a sua opinião. Tornar-se comentador político, como tantos outros, num qualquer canal do cabo onde o ouviremos falar de devolver a democracia aos cidadãos, ou como seria bom a existência de candidaturas independentes ao parlamento, sem nunca nos explicar com clareza como imagina que isso possa ou deva acontecer.
Hoje o Procurador-geral da República retirou a confiança politica ao governo, e tornou Sócrates refém da sua incapacidade de lidar com os casos judiciais, mais ou menos investigados, que vão minando o Primeiro-Ministro. O procurador fala demais, ou pretendeu mesmo pressionar procuradores que supostamente investigam o caso Freeport, mas que na realidade ainda ninguém percebeu quem são. Os ditos procuradores não se queixam ao chefe mas ao sindicato, que vai fazer queixinhas ao Presidente. Isto motiva a negação das pressões pelo procurador original, enquanto deixa cair ter utilizado em vão a palavra do ministro e do primeiro. O conselho superior do chefe do procurador original abre um processo disciplinar. Os partidos da oposição esmagados pela oferta, tão escassas que são as oportunidades, exigem a presença do ministro e a cabeça do procurador. O governo defende o procurador original que nomeou sob sugestão do Procurador principal, salvaguardando a sua inocência até prova em contrário, e no final é quem indicou o procurador para o estrangeiro que lhe tira o tapete, assim como a quem pediu que o nomeasse.
Não é fácil perceber a campanha das europeias. Os temas nem sempre apelam ao interesse das massas e os candidatos nem sempre falam numa língua compreensível pelo eleitor comum. Só quando a coisa começa a arrastar-se pelos assuntos nacionais, que legitimamente também fazem parte da campanha, é que os jornais e televisões começam a dar conta que existem mesmo umas eleições que se avizinham. Isso é claro no estilo da campanha nas ruas. Menos cartazes, mais genéricos sobre o papel dos partidos na Europa, para quem está no poder. A piscar o olho à dimensão europeia dos problemas nacionais, no caso dos partidos da oposição. E depois há o PSD, que não faz campanha de rua e ninguém entende qual a razão. Ou melhor, até se entende. Não há espaço para duas campanhas dentro do mesmo partido. Paulo Rangel que basicamente podemos chamar como a prata da casa da Manuela não pode concorrer directamente em visibilidade com esta, quando ainda subsistem tantas questões sobre a afirmação da líder no partido e no país. Assim, a campanha Europeia do PSD resume-se, até ao momento, às mediáticas aparições de Paulo Rangel no seu estilo académico-formalista, enquanto um pouco por todo o país é a Manuela que aparece a dar cara pelo call center, pela politica de verdade, ou em breve pelos donativos dos militantes. É no fundo uma campanha bicéfala num partido onde faltam protagonistas.
O assunto bloco central é uma espécie de assunto recorrente, daqueles que de vez em quando ocupa parte significativa da comunicação social para nos desviar a atenção daquilo que é realmente importante.
É quase tão importante saber a seis meses das eleições, que vai haver um bloco central ou que há quem esteja disponível para o fazer, como saber o fim daquela novela que se está a acompanhar até porque o mais provável é o autor da novela optar pelo final mais inesperado e dramático. Vai ser assim nas eleições legislativas de Outubro. Só aí o protagonista dessa novela vai saber o seu destino. Ou vai morrer na praia, ou consegue condicionar os blocos que vierem a surgir. Só à luz de uma visão redutora da democracia é possível pensar que as soluções governativas têm de passar por um bloco central dos dois maiores partidos, quando existem outro tipo de combinações parlamentares possíveis. Claro que a estabilidade governativa é um bem caro aos portugueses que não gostam de muita confusão na chafarica, mas nesta altura é natural que quem pede governo se ponha a jeito para o bloco central, mas é terrivelmente imprudente porque condiciona a clareza das opções que os partidos devem apresentar aos portugueses. É também natural que quem pede renovação de maioria não se ajeite ao bloco central e antes prefira agitar os fantasmas da ingovernabilidade com maioria relativa, reforçando a ideia do extremismo dos pequenos partidos que chantageiam o poder legitimamente concedido à força mais votada. É desta realidade, fortemente presente no discurso politico, que fazem eco os jornalistas que não imaginando a possibilidade de se encontrar soluções de governabilidade à esquerda do PS, não imaginam que este se vá coligar com o CDS-PP de Paulo Portas, pois arriscaria uma espécie de sublevação alegrista. Aliás, ainda ontem nos Negócios da Semana na SIC, o jornalista perguntava ao ilustre painel de ex-governadores do Banco de Portugal (daqueles que sabem sempre o que fazer depois de saírem dos cargos) com quem poderia o PS fazer governo, e não contente, perguntou de imediato se seria com o CDS-PP com ar de de alguma surpresa. Logo, resta o PSD para emparelhar num bloco central que aparentemente toda a gente espera que resolva tudo…
Ora este raciocínio não faz sentido. O que ameaça a estabilidade são os falsos unanimismos e não a existência de coligações. Os compromissos são precisamente um dos aspectos da democracia que mais deve ser valorizado e nunca estes porão em risco a governabilidade do país desde que haja boa fé e interesse real em trabalhar em prol do país.
Por isso imagino que esses compromissos possam surgir à esquerda do PS, tanto como aparentemente surgem à sua direita.