Grandes Dramas Judiciários: Urbino de Freitas (19)
Hoje publicamos uma carta inédita directamente relacionada com o caso Urbino de Freitas. Trata-se um carta de Freitas Fortuna, irmão de Urbino e grande amigo de Camilo Castelo Branco, dirigida ao dr. Bechurts, especialista estrangeiro a que recorreu na esperança de salvar o seu irmão. Este documento foi amavelmente disponibilizado por Maria Isabel Fonseca, a quem agradecemos, uma vez mais, o interesse e o empenho manifestado. Carta de Freitas Fortuna ao dr. Bechurts. 14 de Março de 1891. ----------------------- 19. Testemunho do Comissário Geral da Polícia do Porto Testemunha Adriano Acácio de Morais Carvalho, Comissário Geral da Polícia do Porto. Relata os passos os passos capitais da sua intervenção na tragédia da rua das Flores. No dia 2 de Abril de 90, às 6 da tarde, esperava-o à porta de sua casa o sr. dr. Temudo Rangel. Da parte do dr. Joaquim Ferreira pedia-lhe que fôsse à casa Sampaio, onde acabava de falecer um pequeno envenenado. Disse-me das amêndoas recebidas de Lisboa. Desconfiava se que tivessem sido enviadas por Carlos de Almeida, pessoa da família Sampaio, que, por fôrça de certa escritura, podia aproveitar, como herdeiro do falecido. Lembrou-se também da possibilidade da remessa ter sido feita por Miss Lothie. Despachara logo o chefe Lopes, em direcção a Lisboa, encarregado de investigar da proveniência das amêndoas. Em seguida, dirigira-se à casa Sampaio. Encontrara-se lá com facultativos. Fizera várias preguntas, entre elas se guardaram os vómitos dos entoxicados. Continuando com as investigações, no dia 4, o dr. Temudo Rangel disse-lhe que o autor do crime poderia ser o dr. Urbino, única pessoa interessada na morte dos pequenos. O depoente observou que, se da autópsia ao Mário se averiguasse que não era fácil determinar o veneno empregado, nesse caso o autor só poderia ser um médico distinto. O dr. Temudo concordou com êle. Só no terceiro dia das investigações Dona Maria Sampaio falou dos clisteres ministrados pelo dr. Urbino. Dirigiu-se a casa do Médico Ferreira. «Isso explica-nos tudo» - observou o clínico. «Porque, só assim se compreendem as melhoras do primeiro incómodo e a recaída que veio depois». De Lisboa, Pedroso de Lima comunicou-lhe que não acreditava na culpabilidade de Carlos de Almeida e Miss Lothie – a qual, nas suas declarações, se referiu ao frasco de veneno que Sampaio Júnior recebera, enviado de Coimbra, por um tal Eduardo Mota. Refere-se às acareações havidas com Urbino e diversos indivíduos – um dos quais o não reconheceu, pelo que, ele, depoente, deu os parabéns ao arguido. Aponta o facto de, no dia 27 de Março, se terem vendido apenas, para o combóio da tarde, em Campanhã, três bilhetes e meio de 1.ª classe e um de ida e volta. Os três eram de Brito e Cunha e família. O meio, naturalmente, dum filho de Carneiro de Vasconcelos. A ida e volta, de Urbino. Reconstitui a seguir as diligências empregadas para averiguar em que dias faltou Urbino à Escola e aos seus doentes – e em que dias esteve em Lisboa. Reproduz as declarações de Urbino àcêrca da causa das suas idas a Lisboa e da sua hospedagem em casa de Adolfo Coelho – a atitude de Urbino em face das declarações em contrário daquele Professor, e da entrega das carttas em que lhe pedia que afirmasse a estadia, em sua casa, naqueles dias. Quanto à ida a Lisboa, a 27 de - Delegado: - O Réu afirmou que saíu da estação de Stª Apolónia, ao encontro dessa senhora, num trem de cavalos brancos, que ali o esperava. Sabe se a Polícia procurou descobrir esse trem? - Testemunha: - Era difícil averiguar se na estação esteve, ou não, algum carro de cavalos brancos. - Delegado: - Mas a Polícia não viu os números dios carros que estiveram na estação nas noites da chegada do Réu a Lisboa? Não mandou depois às diferentes cocheiras a nota desses números, a ver se aparecia o carro de cavalos brancos? - Testemunha: - Averiguou-se, de facto, que não tinha lá estado nenhum carro de cavalos brancos. Repito: - essa averiguação é coisa difícil. Pormenoriza os trãmites da diligência aos Arcos – o reconhecimento do Réu, o bilhete de visita, escrito a lápis azul. Fôra à Escola Médica, onde verificou, com os drs. Agostinho Souto e Ricardo Jorge, que a letra da caderneta do professor, igual à do bilhete, era escrita também a lápis azul. Na farmácia Amorim obteve receitas escritas pelo dr. Urbino, com o mesmo lápis – e entrega as receitas aos jurados para exame e confronto. - Advogado: - O sr. Comissário referiu-se à primeira entrevista que tive com V. Excª. Equivocou-se. Eu não sabia, à data, que Sampaio tinha uma filha casada com o dr. Urbino. Quem falou no interesse de Urbino foi outra pessoa, foi o sr. Maia. E V. Excª., quando mandou para Lisboa o chefe Lopes, incubiu-o somente de investigar a respeito da responsabilidade de Carlos de Almeida e de Miss Lothie no caso em questão? - Testemunha: - Foram as instruções que lhe dei. Mas logo Pedroso de Lima me escreveu dizendo: - Carlos de Almeida está detido, mas não vejo culpabilidade da sua parte. Depois de interrogar o Comissário ácêrca das testemunhas que de Lisboa vieram ao Porto, a fim de serem acareadas com o arguido, e dum livro apreendido na farmácia Birra, e do repórter que acompanhou a diligência dos Arcos – sem que se chegue a qualquer conclusão a favor ou contra o Réu, o Advogado pregunta: - Recorda-se de que o homem das cartonagens não reconheceu o dr. Urbino? - Testemunha: - Um deles não o reconheceu. - Réu: - Até V. Excª. me disse, por forma muito acentuada: - dou-lhe os parabéns! - Advogado: - V. Excª. diz que o sapateiro não podia afiançar, que fosse ele, mas que lhe parecia... - Testemunha: - Já disse: - Uns lembravam-se, outros não. - Réu: - O sapateiro disse, pela forma mais peremptória, voltado para mim e apontando a caixa: - foi este senhor que eu vi despachar a caixa, e conheço o papel pela côr parda. - Juiz: - Basta! O Réu não pode falar Episódios anteriores:1. A rua das Flores e a casa do negociante Sampaio. Os netos de Sampaio. 2. A família do negociante envenenada pelos doces da caixa. 3. Intervenção de urbino de freitas, genro e tio dos envenenados. Os clisteres de cidreira. 4. Morte de Mário, um dos netos de Sampaio. Ressurge o caso recente da morte de Sampaio Júnior, filho do mercador. 5. Interrogatórios de Urbino. 6. Declarações de Adolfo Coelho. 7. Prisão de Urbino, professor da Escola Médico-Cirúrgica 8. As investigações prosseguem. 9. A imprensa e o Ministério Público. 10. Os especialistas e a polémica. 11. A estratégia da defesa. 12. A conferência de peritos e os recursos apresentados por Alexandre Braga. 13. Uma testemunha inesperada. 14. A Urbino tudo corre mal. 15. O julgamento, os incidentes e as testemunhas de acusação. 16. Mais testemunhas de acusação. 17. A carta de Crito e Cunha. 18. Testemunho de Cardoso Lopes Etiquetas: Grandes dramas |
Comments on "Grandes Dramas Judiciários: Urbino de Freitas (19)"
Nem o Doyle tinha imaginação para criar um delegado policial com essa coerencia.
Pela mesma logica podia Urbino ter alegado que nunca enviou as cartas a Adolfo Coelho , uma vez que em nenhum lado se refere que estavam escritas com lapis azul, eram falsificações e até podiam ter sido escritas pelo Delegado.
Urbino tambem poderia ter pago a uma senhora para confirmar a sua historia, como vimos as testemunhas podem até vir do brasil.
a advocacia tinha muito para crescer
:)
Tambem pensei nisso. Há aqui qualquer coisa que não bate certo, nao é?
PS: a transcrição da carta (já traduzida) será publicada na próxima semana.