O caso Urbino de Freitas envolveu toda a cidade do Porto e fez correr muita tinta. Prova disso é a leitura suplementar que hoje proponho: Cabral, João - «Ferreira da Silva e a Química Analítica no Porto» in Colóquio Ciências. Este artigo refere-se ao percurso de um excelente homem de ciência de finais do século XIX e princípios do século XX, Ferreira da Silva, sem esquecer este episódio dramático. A ilustração de hoje representa o alçado principal da casa onde ocorreu o crime (3ª a contar da esquerda) e é uma delicadeza da arq. Adriana Floret, a quem muito agradecemos. 7. Prisão de Urbino, Professor da escola Médico-Cirúrgica. Pedroso de Lima lê a segunda carta, no ar feliz do pesquisador de pepitas de ouro inesperadamente na posse de veios auríferos de alta valia. «Amigo – diz a carta. – É inconveniente eu ir aí pessoalmente e por isso impõe-se-me escrever-te e confiar como devo em ti. Sabes o que ocorreu aqui. Não sabes, porém, que uma leviandade que profundamente lamento me fêz ir aí, há um mês, aproximadamente, e por duas vezes, com intervalo de dias, por causa de uma mulher casada, cujo nome devo respeitar. Viram-me pessoasdaqui nas idas e voltas; e, caso pelas inquirições que agora se fazem, me obriguem a declarar o motivo que aí me levou, só tenho, para me salvar, o recurso de apelar para ti, dizendo aqui que fui aí pela necessidade de pessoalmente resolver contigo dúvidas sôbre o meu trabalho que aí tens para rever. Confio tanto na tua amizade e na tua crença em que deves considerar-me inocente no horroroso crime cometido, que não duvido que aquiesças ao meu pedido. Creio que não será necessário recorrer ao que te peço; todavia, se fôr necessário, envio-te um telegrama assinado por Vaz e dizendo – Está melhor, isto te indicará que foi necessário eu fazer a anterior declaração e que só então deves prevenir os têus sobre isto. Peço-te que rasgues, ou melhor, queimes esta carta, e responde na volta do correio. O teu amigo – Urbino de Freitas.» «P.S. – Nota que, das duas vezes que aí estive, com intervalo duma à outra de três dias, fui teu hóspede também, e apenas durante o intervalo entre a chegada aí do rápido, às 12 e meia da madrugada, e partida do mesmo, no dia imediato, às três e meia horas da tarde.» As duas cartas restantes, a terceira escrita de modo a impor a convicção da estadia do remetente em casa do destinatário, nos dias das suas faltas na Escola Médica, não revestem a importância jurídica da que ficou trasladada nestas páginas. O Comissário Pedroso de Lima, com os chefes encarregados das investigações preparatórias, seguem para o Pôrto, no fito de assistirem ao interrogatório definitivo do suspeito criminoso. Às 11 horas da manhã, a 15 de Abril, Morais de Carvalho, assistido por aquêles investigadores, interroga Urbino de Freitas no Comissariado. Pede-lhe que relate circunstanciadamente o que souber quanto ao envenenamento dos sobrinhos e à morte do cunhado, José Sampaio. Êle desenha o quadro clínico da doença e decesso de Sampaio Júnior com a proficiência de Mestre seguro no diagnóstico e suas consequeências patológicas. Isto pôsto, conclui que no caso do seu cunhado, nem houve êrro de diagnóstico, nem há sombra de crime. Recapitula, um por um, os aspectos da evolução de enfermidade. E assevera, terminante, que o desenlace fatal não foi senão a consequência da gravidade da doença e do estado do doente. Quanto aos sobrinhos, diz que fôra à rua das Flores, no dia 31 de Março, a pedido de sua sogra, a qual se encontrava com um incómodo gástrico. Mais afirma «que nunca tratou as crinaças, pos até aconselhou a que se chamasse um médico». Apenas «mandou dar-lhes um vomitório e sal de frutas à sogra». Em relação às idas a Lisboa nos princípios e fins de Março, ratifica as declarações prestadas anteriormente – estivera na capital de 4 a 5 e de 7 a 8 de Março, por causa da tradução que o seu amigo Adolfo Coelho se incumbira de corrigir, e em casa de quem se hospedou, nos referidos dias. Saíra do Pôrto, no «rápido», com destino a Lisboa, a 27, ainda por causa da tradução; mas perdera o combóio em Coimbra, por obra de súbito incómodo intestinal, que o obrigou a demorar-se na sentina da estação. Como o combóio de Lisboa partisse antes de aliviado do incómodo, seguira depois até à cidade, no combóio do ramal privativo, indo comer ao Hotel do Comércio, e fazendo horas no café da rua da Sofia, conversando ali e aqui com êstes e aquêles indivíduos. À hora própria estava de ret^rno ao Pôrto, onde chegou a 28, às sete e meia da manhã. Assinadas estas declarações, ridigidas em tom firme e valioso, o Comissário dispara, fitando o declarante: - V. Ex.ª afirma que esteve hospedado, em Lisboa, na casa de Adolfo Coelho. Interrogado Adolfo Coelho a êste respeito, nega que tal se desse! - É impossível! – contesta, aprumando o busto. - Eu leio-lhe as declarações do ilustre Professor – e lê, em voz severa, o auto respectivo - Êle assinou essas declarações?! O Comissário mostra-lhe a assinatura. Disfigurado, pálido, o inquirido procura alentos para se reaprumar no seu pôsto, comentado, dorido: - Parece incrível! - Mas não ficamos por aqui – continua o inquiridor, batendo as palavras na toada de martelo a malhar ferro na bigorna: - Tenho em meu poder as cartas que o senhor lhe escreveu do Pôrto, pedindo que, se fôsse interrogado pela Polícia, declarasse que fôra hóspede da sua casa em Lisboa. Mostra-lhe as cartas. Num murmúrio sufocado pela angústia, o suor a alagar-lhe a face, ser vivo transfigurado em cadáver na decomposição, rouqueja, prostrado, quási áfono: - Parece incrível! O Adolfo! O meu grande amigo! O Comissário, agora inteiramente convencido da sua atuação directa na tragédia em curso, aproveita o quebranto manifesto, insta-o a confessar a verdade, tôda a verdade, o que só o beneficiará perante a Justiça. Êle, que parecia prestes a sucumbir, toma fôlego, ergue a cabeça, põe no prato da balança o episódio romanesco a que alude, vagamente, na carta a Adolfo Coelho acima transcrita. É certo. Faltou à verdade. Estivera em Lisboa, mas não em casa de Adolfo Coelho. E faltou à verdade, no dever sagrado de salvaguardar o nome e a honra duma senhora casada que ali foi visitar. Essa senhora viera ao Pôrto, acompanhado pelo marido, já velho, de propósito para o consultar na qualidade de Médico. As relações criadas no seu consultório do Pôrto, com a cliente, converteram-se a breve trecho em relações amorosas, em Lisboa, relações que o levaram àquela cidade, onde esa senhora vive na companhia do velho marido. Fôra encontrar-se com ela em 5 de Março. Chegara a Santa Apolónia à meia hora da madrugada. Ela tinha-o prevenido de que, em frente da estação do Caminho de Ferro, o esperava um trem, atrelado a parelha de cavalos brancos. Ao sair da estação, láse lhe deparara o carro previsto. Tomara-o. Partira a caminho... do centro da cidade. A dama dos seus amores aguardava a passagem do trem em rua que lhe pareceu ser a da Alfândega. O trem parou a fim dela subir. Continuaram na marcha misteriosa. Seguiram pela rua Augusta e Rossio. Passaram junto do Teatro Dona Maria. Apearam-se em frente de uma casa, em rua cujo nome ignora. Entraram nessa casa, subiram ao segundo andar, demoraram-se até às duas horas e meia da madrugada, despedindo-se, separando-se a essa hora. - Em que hotel se hospedou, depois disso? – interpela o inquiridor. - Em nenhum. Passei através da cidade até às três e meia da tarde, hora do embarque no combóio do Pôrto. No dia 7 para 8 repetiu-se o encontro, nas mesmas condições. E não se repetiu de 27 para 28 por ter perdido o combóio em Coimbra. - O nome dessa senhora? Nega-se a revelá-lo. Revelar o seu nome seria comprometer, o que é indigno dum homem de brios, a reputação duma senhora que confiou os seus destinos à sua ponderação. Mas, a sós com Pedroso de Lima, diz que ela se chama Berta e que dava o nome de Franco ao marido. - Julgo a sua situação mais comprometida ainda com essa história da senhora casada. E por isso... considere-se prêso. [Episódios anteriores:] 1. A rua das Flores e a casa do negociante Sampaio. Os netos de Sampaio. 2. A família do negociante envenenada pelos doces da caixa. 3. Intervenção de urbino de freitas, genro e tio dos envenenados. Os clisteres de cidreira. 4. Morte de Mário, um dos netos de Sampaio. Ressurge o caso recente da morte de Sampaio Júnior, filho do mercador. 5. Interrogatórios de Urbino. 6. Declarações de Adolfo Coelho |